terça-feira, 21 de junho de 2011

A princesa que soltava pum!


A princesa que soltava pum!
I
Quase sempre as histórias de princesa acabam quando elas entram na igreja para se casar com o príncipe e a gente lê aquela frase: “e viveram felizes para sempre.”
Essa aqui, não. Essa começa quando as outras acabam.
Quer ver?
Então vamos lá:
Era o dia do casamento da Princesa!
O sol ensolarava, os pássaros passaravam e as flores floreavam. A Princesa, que era morena e por isso era chamada de Princesa Morena, ia se casar com um príncipe. Ele era alto, belo, forte e loiro. Tão loiro que era chamado de Príncipe Loiro.
A igreja estava enfeitada com fios de seda que iam de um lado ao outro.
Reis e rainhas vieram de todas as partes do mundo para assistir ao casamento. Estavam lá:
-o rei Krug, que era anão e usava sapatos com saltos de um metro,
- a rainha Maiara com seu enorme cocar de penas de pavão,
-o rei Balabalu com sua coroa de dentes de elefante,
-as rainhas Li-Tsen-Lu e Lu-Tsen-Li, que eram gêmeas siamesas e usavam uma mesma capa feita de pele de tigre,
-a rainha Gelásia com seu cetro de gelo,
-e o rei Abdul com seu turbante que tinha todas as cores do arco-íris,
Então a orquestra começou a tocar a marcha nupcial e o Príncipe Loiro foi para perto do padre.
Logo depois apareceu a Princesa, num lindo vestido branco, cravejado de pérolas e diamantes. Quando ela entrou na igreja, todos disseram “Oh!”, de tão linda que ela estava.
Então a Princesa foi até o altar, deu a mão para o príncipe e o padre começou a cerimônia.
Era uma emoção só. As rainhas choravam e os reis fingiam que não choravam.
Mas, quando chegou o momento em que o padre pergunta ao noivo: “Você aceita a mão da Princesa em casamento?”, aconteceu uma coisa que ninguém esperava. Uma coisa que nunca tinha acontecido em nenhum casamento de princesa. Essa coisa foi que ela... soltou um pum!
Isso mesmo, um pum.
E foi um pum daqueles bem barulhentos, que não dá para disfarçar. O vestido da Princesa chegou a levantar um pouco, de tão forte que tinha sido o vento do seu pum.

Mas isso não foi o pior. O pior foi que a ventosidade da Princesa espalhou-se pela igreja e tinha um cheiro tão forte que Abib Narigus, um califa que tinha um nariz enorme, quase desmaiou.
As rainhas, espantadas com o barulho do pum, colocaram a mão na boca. Os reis, espantados com o cheiro do pum, colocaram a mão no nariz.
Ninguém sabia o que fazer. O Príncipe olhava para o Padre, o Padre olhava para a Princesa, e a Princesa, envergonhada, olhava para o chão.
Foi aí que uma criança gritou “A princesa soltou um pum!” e começou a rir. E, como uma risada puxa a outra, logo começou uma risadaria gigantesca.
O Padre pigarreou e repetiu sua pergunta: “Príncipe Loiro, você aceita a mão da Princesa Morena em casamento?”.
O Príncipe olhou para trás, viu todo mundo rindo da Princesa, e pensou assim: “Todo mundo está rindo da Princesa. Se eu me casar com ela, todo mundo vai rir de mim.”
Então o Príncipe estufou o peito e falou bem alto, para que todo mundo ouvisse:
“Não, não aceito casar com uma princesa que solta pum!”.
E aí deu meia volta e saiu da igreja.
A Princesa não conseguiu sair do lugar. Ficou lá, parada, paralisada, olhando para a ponta dos seus sapatos.
Todos os convidados foram saindo devagar.
Os pais da Princesa não sabiam o que fazer. Estavam em dúvida entre:
a-) Ir atrás do Príncipe e exigir que ele se casasse com a Princesa.
b-) Xingar os convidados porque eles haviam rido de Princesa.
c-) Abraçar a Princesa.
Acabaram optando pela opção “C”.

II
Se tem uma coisa que se espalha mais rápido do que o cheiro do pum é a fofoca. Por isso, logo o povo todo ficou sabendo o que tinha acontecido na igreja.
A Princesa, coitada, nos primeiros dias ficava na janela, olhando para o horizonte e se lamentando. Mas aí as pessoas passavam e gritavam:
“Oi, Punliana!”
“Oi, Punzelda!”
“Oi, Rapumpunzel!”
E duas lágrimas caíam de seus olhos, uma de raiva e outra de tristeza.
Ela também nunca mais foi convidada para bailes e festas. Todo mundo tinha medo que ela soltasse puns e estragasse o baile.
Até os reis e rainhas, quando visitavam os pais da Princesa, faziam alguma piadinha, usando palavras que tinham “pum” no meio:
“Como vai a pundonorosa Princesa?”
“Oh, que situação pungente...”

III
O Príncipe Loiro nunca mais deu notícias.
Os pais da Princesa tentaram conseguir outro marido para ela, mas nem mesmo príncipes menos cotados, como Tanko, o manco, e Klesgo, o vesgo, queriam saber da Princesa.
A gota d’água foi quando começaram a chegar turistas de outras cidades para vê-la.
Eles vinham em longas carruagens, ficavam com binóculos em volta do castelo e, quando a Princesa aparecia no alto da torre, apontavam para ela e gritavam:
“É a princesa que solta pum! É a princesa que solta pum!”
Na rua em frente ao castelo começaram até a surgir alguns pilantras que vendiam vidrinhos cheios de ar, garantindo que ali havia legítimo pum real.

IV
A Princesa foi ficando cheia daquela situação. Foi ficando tão cheia, mas tão cheia, que um dia, depois de escutar mais uma vez os gritos de “É a princesa que solta pum! É a princesa que solta pum!”, ela foi até a murada do castelo e gritou:
“Eu solto pum mesmo! Toda princesa solta! E vocês também soltam! Aposto que todo mundo aí embaixo já soltou um pum hoje, é ou não é?”
Ninguém respondeu nada.
A Princesa continuou: “Eu sabia! Vocês não responderam porque já devem ter soltado um pum mesmo. Seus punzeiros, seus peidófilos, seus flatulentos! Vocês não vêem que soltar pum é uma coisa comum? Não vêem que isso não é motivo de vergonha para ninguém?”
E para encerrar o seu discurso, a Princesa apertou os olhos, fez uma tremenda força e soltou um pum tão forte que ecoou feito um trovão por todo o reino.


V
Desse dia em diante nunca mais houve excursões de punturismo, que é o nome do turismo feito por causa do pum da Princesa.
Mas a grande mudança aconteceu com a própria Princesa. Ela parou de segurar seus puns.
Mais que isso: ela passou a soltar puns de todos os jeitos: sonoros, silenciosos, em dó maior, em sol menor, com cheiro bom, com cheiro ruim e até sem cheiro. Virou uma especialista em puns, uma espuncialista.
Se ela queria andar de patins, soltava uns puns bem fortes e ia a jato.

Às vezes, quando estava no chão, ela dava uns puns e fingia que estava levitando.
Aprendeu até a soltar puns coloridos: amarelos, roxos, verdes e azuis.
A Princesa transformou o pum numa arte, o punzismo.
A partir daí ela ficou muito mais feliz, e esse até poderia ser o final da nossa história.
Mas o final não vai ser aqui.
Sabe por quê? Porque apareceu um dragão no reino.

Isso mesmo, um dragão. E era um daqueles dragões típicos: coberto de escamas e soltando fogo pelo nariz. A única diferença é que ele falava, o que é relativamente raro em se tratando de dragões.
O dragão chegou avançando cidade adentro, com seus pés imensos que deixavam buracos enormes nas ruas.
As pessoas entraram em suas casas e ficaram espiando pelas fechaduras.
De vez em quando o Dragão soltava uma enorme labareda de fogo para o alto, só para mostrar sua força.
Mas ele não queria destruir o reino. Ele queria outra coisa: comer.
Só que tinha que ser um prato muito especial
E quando chegou em frente ao castelo, que ficava bem no centro da cidade, o Dragão gritou:
“Quero comer uma princesa!”
O Rei foi até a sacada, pegou um megafone e perguntou: “Uma princesa? Não serve outra coisa? Você não gosta de mais nada?”
O Dragão respondeu: “Eu adoro brócolis.”
“Ótimo, então vou lhe mandar uma tonelada de brócolis.”
“Não, obrigado. Quero uma princesa mesmo. É que eu vi num livro que os dragões comem princesas, e eu nunca experimentei uma princesa.”
“Este livro deve ser muito antigo. Comer princesa está fora de moda”, argumentou o Rei.
“Não tente me enrolar. Se não me entregarem uma princesa em uma hora, botarei fogo no reino”, respondeu o Dragão.
E, só para mostrar que ele não estava brincando, jogou uma labareda numa carroça que estava cheia de milho e foi pipoca para todo lado.

O fim da Princesa que soltava pum!

VI

Depois da ameaça do Dragão, o Rei chamou o Chefe da Guarda, a Rainha e a Princesa para uma reunião urgente.

“O que podemos fazer?”, perguntou o Rei.

“Deixe comigo”, falou o Chefe da Guarda. “Meus soldados vão acabar com este monstro.”

“O senhor acha mesmo que seus homens podem dar conta deste dragão?”, perguntou a Rainha desconfiada.

“É claro, majestade. Soldados podem resolver qualquer coisa.”

“Então está bem. Ataquem o Dragão!”, decretou o Rei.

VII

Os bravos soldados se prepararam com apuro para atacar o Dragão. Colocaram suas armaduras, puseram seus capacetes, pegaram seus escudos e prepararam suas melhores flechas, lanças e espadas.

O Chefe da Guarda juntou todos os soldados no pátio do castelo e gritou:

“Homens, vamos acabar com este Dragão. Marchem!”

Então a ponte levadiça do castelo baixou e os soldados começaram a marchar para fora do castelo.

Quando estavam a uma certa distância do Dragão, o Chefe da Guarda falou: “Atenção, arqueiros!”

E todos os arqueiros pegaram uma flecha.

“Preparar!”

E todos os arqueiros colocaram suas flechas nos arcos.

“Apontar!”

E todos os arqueiros apontaram para o Dragão.

“Fogo!”

Mas aí, quando o Chefe da Guarda disse “Fogo!”, quem soltou fogo primeiro foi o Dragão, e ele transformou as flechas e os arcos dos soldados em cinzas.

O Chefe da Guarda não se deu por vencido e disse: “Soldados, vamos usar as lanças. Preparar!”

E os soldados preparam suas lanças.

“Apontar!”

E os soldados apontaram suas lanças.

“Já!”

E os soldados atiraram suas lanças.

Quando o dragão viu aquele monte de lanças vindo em sua direção, soltou uma enorme labareda de fogo e queimou as lanças no ar. Elas viraram uns gravetinhos queimados e caíram no chão.

Mais uma vez o Chefe da Guarda não se deu por vencido e disse: “Soldados, preparem suas espadas!”

E os soldados prepararam suas espadas.

Então ele disse “Atacar!”, e todos saíram correndo em direção ao Dragão. Todos mesmo, inclusive o Chefe da Guarda.

Mas, quando eles estavam chegando perto do Dragão, o monstro soltou uma chama de fogo enorme em cima dos soldados. Como as armaduras deles eram de ferro, elas ficaram muito quentes, pelando mesmo, e os soldados (inclusive o Chefe da Guarda), tiveram que se atirar no fosso do castelo para esfriá-las.

O Dragão achou aquilo muito engraçado e ficou rindo um tantão: “Rá, rá, rá”, e a cada risada dele saía fumaça do seu nariz.

Mas, de repente, ele fez uma cara bem séria e disse: “Agora chega de brincadeira. Ou eu almoço a princesa, ou eu queimo a cidade inteira.”

Ouvindo isto, a Princesa ergueu o queixo e disse: “Se é para o bem de todos e sobrevivência geral da nação, digo ao povo que serei o almoço do Dragão.”

O Rei e a rainha começaram a chorar.

“Não vá, minha filhinha...”, diziam os dois. Mas a Princesa estava decidida. Ela sabia o que devia ser feito. Então foi até a janela e disse: “Estou aqui, senhor Dragão. Sirva-se.”

Quando a viu, o Dragão pegou um lençol que estava num varal e amarrou-o no pescoço como se fosse um guardanapo. Daí estendeu a mão, segurou a Princesa e levou-a até a boca.

VIII

Porém (nestas horas tem sempre um “porém”), quando ele já estava quase abocanhando a Princesa, ela concentrou-se o mais que podia, caprichou o mais que podia, e aí soltou um pum que fedia o mais que podia.

Um punderoso pum!

Quando o Dragão sentiu aquele cheiro, largou a Princesa na hora. Ela só não se estatelou no chão porque segurou no lençol que servia de guardanapo para o Dragão.

O Dragão tossiu, revirou os olhos, abanou-se com o rabo, prendeu a respiração e ficou mais roxo do que já era. Depois, quando conseguiu voltar a respirar, perguntou: “Caramba! É assim que as princesas cheiram?”

“É claro! Todas nós somos assim.”

“Então eu desisto dessa idéia de comer princesas. Vou voltar para os meus brócolis.”

E, dizendo isso, o Dragão foi embora e nunca mais comeu uma princesa. Virou vegetariano. Ou melhor, brocoliano.

IX

O feito da Princesa correu o mundo. Nunca antes uma princesa tinha conseguido escapar sozinha das garras (e dos dentes) de um dragão.

Fizeram poesias músicas e até peças de teatro sobre ela. Se já tivessem inventado o cinema naquele tempo, teriam feito um filme também.

Por conta disso, ela ficou muito famosa e príncipes de todos os cantos do mundo começaram a mandar cartas pedindo-a em casamento.

O Rei resolveu organizar as coisas e marcou um dia para que todos os príncipes viessem falar com a Princesa, e aí ela escolheria aquele que seria seu marido.

No dia marcado havia uma imensa fila de príncipes na porta do palácio. Eram príncipes de tudo quanto é lugar, de tudo quanto é cor, de tudo quanto é tamanho.

Estavam lá, por exemplo:

-Moustache, o príncipe francês que tinha bigodes que chegavam até o chão (mas que ele usava como cachecol),

-Falatutti, príncipe italiano que falava o tempo todo e só parava de vez em quando para respirar,

-Ching Dong, príncipe chinês que tinha unhas tão longas que podia coçar o pé em pé,

-Calvino, príncipe espanhol que ficava polindo sua careca todo o tempo (e nem usava coroa para não tampar sua lustrosa cabeça),

-e até o Príncipe Encantado, que tinha acabado de se separar da Branca de Neve (parece que ela preferiu voltar para os sete anões).

Mas o primeiro da fila, quem diria, era o Príncipe Loiro.

Quando chegou até a Princesa, que estava sentada em seu trono, ele colocou um pregador no nariz e disse com a voz anasalada:

Princesa, agora que você é famosa, vou lhe dar uma segunda chance. Eu, o lindo e loiro Príncipe Loiro, aceito me casar com você.”

A Princesa ficou muda por um segundo. E depois caiu na gargalhada. Quando finalmente conseguiu parar de rir, falou: “Eu nunca vou querer alguém como você, Príncipe Loiro. Dê meia-volta e saia daqui antes que eu solte um pum tão forte que esse seu pregador não vai adiantar nada!”

E o Príncipe Loiro saiu correndo.

Então vieram os outros príncipes. Quase todos eram altos, belos e fortes. Mas, depois de conversar com todos, ela acabou escolhendo um que não era nem alto, nem belo, nem forte, e muito menos loiro. Na verdade, era meio baixinho, meio feio, meio fracote e tinha um cabelo castanho bem comum. Aliás, esse era seu nome. Príncipe Castanho.

Mas ele tinha uma qualidade muito rara: sabia arrotar. E foi assim que ele conquistou a Princesa. Eu explico:

É que, quando chegou sua vez de conversar com ela, em vez de declamar uma poesia ou fazer uma declaração de amor como todos os outros, ele deu um arroto. Só que não foi um arroto comum. Foi um arroto musical!

Isso mesmo, um arroto musical. O Príncipe Castanho conseguia dar seus arrotos em vários tons diferentes, do mesmo jeito que a Princesa conseguia com seus puns.

Foi amor à primeira vista. Ou melhor, ao primeiro ouvido.

X

O casamento foi marcado para dali a alguns meses.

Mas dessa vez a cerimônia não foi na igreja. Ela aconteceu no campo de futebol da cidade (sim, naquele tempo já tinha futebol, e o time da aldeia era o PEC (Pum Esporte Clube).

E não convidaram só os reis e as rainhas. A Princesa fez questão de chamar todo o povo da cidade.

No dia da cerimônia, o estádio estava lotado. As pessoas tinham levado faixas, cornetas e estavam fazendo uma bagunça muito feliz.

Porém, todos fizeram silêncio depois que a Princesa entrou. E até as moscas pararam de zunir quando o padre perguntou ao noivo: “Você aceita a mão da Princesa em casamento?”

Sabem o que aconteceu nesta hora?

Isso mesmo. A Princesa estava tão nervosa que soltou outro pum.

Prummmm!

Todo mundo ficou esperando a reação do príncipe. Será que ele também iria abandonar a Princesa no altar?

Mas, para surpresa de todos, o Príncipe Castanho respondeu: “É claro que aceito. Todo mundo solta pum. E todo mundo arrota.” E aí soltou um tremendo arroto de felicidade, tão tremendo que o estádio tremeu.

Por um momento houve um grande silêncio. As pessoas ficaram olhando para a cara uma das outras sem saber o que fazer. Mas então um menino gritou “Eu também solto pum e arroto”, e soltou um pum e arrotou ao mesmo tempo.

O estádio inteiro caiu na gargalhada, e aí os reis, as rainhas e todas as pessoas da aldeia começaram a soltar puns e dar arrotos (até o padre, mas só depois de dizer “Eu vos declaro marido e mulher”).

XI

E assim, soltando puns e arrotos, todos viveram felizes para sempre (menos a aldeia vizinha, quando ventava muito).


do blog: http://blogdolele.blog.uol.com.br/


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